sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

'A Festa Brasileira' estreia colunas do Baticumbum

Depois de apresentarmos a maioria dos colunistas que passam a colaborar com o blog (leia aqui), damos início à publicação dos textos escritos por ele e que representam suas opiniões pessoais sobre o que escrevem. Aproveite e não deixe de enviar suas dúvidas, críticas e sugestões. 


  


O Carnaval de Porto 
Alegre no fio da navalha

Impossível não abrir esta coluna sem expressar uma grande preocupação com caminhos tortuosos que a política municipal implica ao Carnaval de Porto Alegre. Sou obrigado a comentar algo não tão radiante como o início dos primeiros ensaios ou os preparativos do Carnaval que vem chegando.

Estamos em um momento de crise quanto aos espaços físicos destinados à produção da festa. Não sei ao certo, mas, alguma vez o carnaval de Porto Alegre não esteve em crise? Os mais antigos poderiam me ajudar nesta, apesar de minha intuição, embasada em estudos acadêmicos. Muito se sabe e se sugere sobre as dificuldades expostas a militantes e mediadores comprometidos com a realização da festa. Sabemos que políticas de identidade e de vinculação a outras áreas em que o Carnaval poderia se tornar visível e estimulante, como na área do turismo e das políticas voltadas à educação, como exemplo, utilizam (e utilizaram) o Carnaval como plataforma de escassos e tímidos projetos. Para não dizer do desdém e da falta de compromisso firmado entre o poder público e os seus realizadores, desde um passado longínquo.

Mas não faço parte da ala dos que eternamente reclamam por um lugar ao sol, e esbravejam repetitivamente quanto aos fracassos e desventuras do olhar da Prefeitura Municipal e de outros possíveis apoiadores. Se os atores sociais conjugados na realização do evento não estão em sintonia – Prefeitura, Entidades Carnavalescas, patrocinadores, produtores – espera-se que exista um avanço no consenso entre os grupos carnavalescos de como resolver os problemas, e qual o rumo que tomará a festa nos próximos anos. Para que(m) é produzido o Carnaval em Porto Alegre? Quais são os objetivos da realização da festa no Porto Seco? E, quando se fala em crescimento do Carnaval, do que exatamente trata a ideia do crescimento (em público, arrecadação, riqueza visual, performance artística)? Esse assunto pode se desdobrar em outros debates para além.

O que compromete os trabalhos atuais, e no dá os indícios dessas respostas sem ainda uma conclusão possível, podem ser analisados nas ações da Prefeitura em relação a alguns fatos mais atuais. Cito apenas dois fatos que repercutiram: a degradação do Porto Seco e a possibilidade de interdição dos Acadêmicos da Orgia. 
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O Complexo Cultural do Porto Seco que foi inaugurado em 2004, com seus amplos barracões e a pista de desfiles, parece que foi há tempos abandonado. Se, por um lado, ele foi festejado como um Complexo com amplas condições de se tornar a fábrica ideal de produção do Carnaval porto alegrense, que existiu antes mesmo da Cidade do Samba carioca (inaugurada apenas para 2006), por outro, ele foi dispensado de manutenção, segurança e transporte público desde seu primeiro ano de vida. Já tive a experiência de esperar por quase uma hora o ônibus numa parada da Plínio Kroeff, depois de uma noitada de desfiles em 2009. Assim como muitos dos leitores. E pouca coisa mudou. Não há transporte público disponível para a região e os trabalhadores dos barracões no pré-carnaval. Uma linha de ônibus que pare a menos de 500 metros da entrada do Complexo ainda não existe. Não há boa comunicação visual indicando o Complexo para aqueles que chegam lá, sequer para aqueles que querem se dirigir às arquibancadas indicadas nos seus ingressos. As informações são precárias, o cuidado com a circulação e o bem estar do público nos dias de Carnaval também são ruins. 

As numerosas e redundantes promessas de conclusão das arquibancadas são cada vez mais frequentes e menos confiáveis. Se o Complexo Cultural do Carnaval já foi transferido para regiões extremas, avalia-se que isto represente uma perda inestimável de prestígio e interesse por parte de grupos sociais cada vez mais distantes da festa. O que poderia tornar menos violento o processo de desinteresse do Carnaval pelo poder público, que foi manifestadamente expressado quando não foi aceita a construção do complexo no Parque Marinha, o que poderia amenizar a falta de cuidado com o evento seria a finalização do Complexo Cultural do Porto Seco. E é isto o que queremos para além daquilo que parece ser a regra no mundo político, já revelada por um dos ramos da disciplina que estudo, a “antropologia política”: promessas são feitas para não serem cumpridas. Ao se cumprir a promessa, perde-se a relação de confiança e subordinação criada antes desta. As reedições da mesma promessa arregimentam uma base eleitoral fiel com a missão de fazê-la cumprir.

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Segundo ponto que trago para reflexão: como uma instituição carnavalesca muito tradicional na cidade, que conta com mais de 50 anos de história, enraizada no bairro Santana, onde criou relações duradouras de sociabilidade, memória e está intrinsecamente compreendida na história social da cidade, pode sofrer uma ameaça de interdição e possível remoção por parte de órgãos públicos? 

Tenho respeito e consideração muito grande por Acadêmicos a Orgia. Além de ter estado por um ciclo carnavalesco por lá, produzindo uma das partes da minha dissertação de mestrado sobre o Carnaval de Porto Alegre, em 2011, aprendi como se faz um Carnaval com poucos recursos, muita criatividade e invenção. Sei que não pode ser o único critério de argumentação e defesa da Escola para além do mundo carnavalesco, a riqueza das narrativas sobre a Escola, seu tempo de percurso na cidade e no carnaval, e o quanto foram muitos os destaques e amantes da cultura carnavalesca que começaram por lá, e ainda mantêm grande apreço pela verde e branco da Ipiranga.

O que me parece complementar os indícios de uma ação coordenada por alguns órgãos da Prefeitura ao revés da fragilidade atual destes espaços é a forma como se procedem as intervenções e como se mobilizam as reclamações a respeito de disputas já antigas. Para dar o exemplo de outro caso, quando se interveio em nome dos moradores da Cidade Baixa em busca de silêncio (bairro que habito), fecharam-se bares e se construiu uma política de combate aos donos dos estabelecimentos “foras da lei”. Mas sabia-se que muitos deles procuravam estar adequados aos regulamentos, impedidos pela morosidade burocrática e pelos excessos de normas e regulamentações. Ao mesmo tempo, que se procede em nome dos reclamantes, se opera implacavelmente uma política de restrição destes espaços, e não se explica o que se pretende com o bairro: torná-lo atrativo a investidores interessados nos espaços que logo serão mais nobres, com as obras para a Copa, com a revitalização da Orla do Guaíba e com outras melhorias que logo serão restritas a um público alvo destinado.

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Quando parecia que o mundo carnavalesco estaria em posição intocável, com as resoluções da Prefeitura a favor das Entidades Carnavalescas no entorno do Beira Rio em reforma para o megaevento esportivo, se ameaça uma entidade que está estabelecida num local privilegiado, nas margens do Arroio Dilúvio em plena Avenida Ipiranga, nas proximidades do Centro Histórico e das grandes vias de acesso aos locais mais nobres da futura cidade.

Isto seria apenas coincidência? Estes processos não são concomitantes? Serão apenas suposições deste humilde colunista? O que se espera de um Carnaval que não tem seu Complexo Cultural finalizado, e que tem uma das Escolas de Samba mais antigas da cidade sob ameaça?

Enquanto não se aplicam as respostas nas práticas e nas soluções destes grandes problemas, se presume que, invariavelmente, vivemos no fio da navalha...

6 comentários:

Eduardo Franco disse...

concordo com tudo isso mas a pergunta que fica é, porque o nosso povo carnavalesco não é unido? não adianta a gente ficar se lamentando de uma coisa sendo que o nosso povo não é unido todo o ano é sempre a mesma coisa o nosso carnaval é um carnaval de panela e de interesses próprios, eu tenho certeza de que a associação e a liga não estão se importando com isso eu nunca vi nenhum deles se manisfestarem com isso que está acontecendo.Acho que não adianta a gente bater na mesma tecla todo o ano e não ver a realidade das coisas que é a nossa falta de união.

Anônimo disse...

Excelente comentário, quem sabe não é a hora de desistir do porto seco e voltamos ao centro, implantar uma pista de eventos proximo ao acampamento farroupilha onde todos o eventos ali seriam realizados, com o parque tematico farroupilha, os barracões e um museu do carnaval, os barracões se faria uma permuta com as transportadoras que ocupariam no porto seco e contruiriam novos barracões na nova pista de eventos na area central de porto alegre, de onde nuncadeveria ter saido!!!!!

João

Anônimo disse...

Belo comentário Eduardo Franco, nosso carnaval é de vaidades . Muita gente pergunta qual a diferença entre POA e RJ. Uma delas é isso aí, nosso carnaval, nosso samba perdeu a raiz. Somos a terra do swing e muitos querem falar chiado e fazer partido alto. Voltando as diferenças o RJ tem o samba como ferramenta de afirmação e resistência de uma raça e as escolas de samba surgiram como SOCIEDADES PARA NEGROS. Aqui nos dias de hj 80% dos carnavalescos estão interessados em " aparecer com um CRACHÁ PENDURADO NO PESCOÇO NO DIA DO DESFILE", Agora lutar por essa cultura , isso é para poucos.

Alexandre

Anônimo disse...

Concorco com o que foi dito. Nosso estado não tem tradição de carnaval, agora se for para Semana Farroupilha as coisas são bem diferentes. O Povo Porto Alegrense se acha Europeu, e carnaval é coisa para negros, pobres. por isto fomos atirados para o Porto Seco quanto mais longe dos europeus melhor. E é uma boa plataforma para políticos na hora de se elegerem muitas promessas, depois.... Lógico não há interesse em investir. Além do mais, como já foi dito antes nosso carnaval é de vaidades. Não podemos nos comparar com o Rio de Janeiro, a nossa realidade é bem diferente. Enquanto não houver união, dirigentes de escolas mais sérios, pensando mesmo na sua escola e não somente em seu próprio benefício e levar um bom espetáculo para avenida. Quem sabe seja também a hora de diminuir o número de escolas e agrupara mais, para que possamos ter mais qualidade, mais gente desfilando. enfim... ´Penso que quando falas em crescimento é no sentindo espetáculo: melhores fantasias, carros, maior número de desfilantes. Uma coerencia entre fantasias e o enredo que está sendo apresentado, mais profissionalismo. Isto considero crescimento. Enquanto não houver isto não teremos investimento. enfim...João Loretto

Anônimo disse...

mas não quero que nosso carnaval seja mais rico, quero que seja como sempre foi, original, com seus estandartes tradicionais, sua bateria cadenciada e para nos mesmo ver, não para turistas, ser o carnaval do povo se porto alegre, num lugar digno com onibus, proximo de todos, com cidadania tão falada pelas prefeituras que expulsaram o carnaval do centro!!!

João

Ulisses Duarte disse...

Interessante todos os comentários. Não concordo com tudo o que foi dito, mas é um bom debate a ser feito.
De qualquer forma, agradeço aos leitores.
Voltarei a escrever sobre o carnaval de Porto Alegre com um olhar crítico, a partir do meu ofício engajado no mundo acadêmico.