terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A estreia da coluna "Baú do Gugu'


Queria eu ter o poder de fazer o tempo retroceder ante as exigências do desejo para que pudéssemos reviver épocas de ouro da nossa folia... Queria eu ter sob meu poder um grande baú onde tesouros da lembrança são guardados...

É o encontro do passado com o presente que me move a me aventurar a escrever. É público e notório que sou um apaixonado por essa festa. O Carnaval que desperta paixões, que faz nascerem grandes amizades e que abarca uma constelação fulgurante de grandiosos talentos será o cenário para as nossas viagens ao passado.

Escolhi para a estreia desta coluna focar em uma personagem. De mãos dadas, entramos na máquina do tempo e voltamos de um encontro marcante com a emoção...


Iara Deodoro – A Alma Negra mãe de muitos filhos
Iara desfilando como Iemanjá


Nascida em uma família que é exemplo de superação e determinação, a coreógrafa e assistente social Maria Iara Santos Deodoro guarda em sua memória uma história envolvente no contexto carnavalesco.

Mulher que fez da dança sua vida e que cultivou como pérolas muitos filhos sem tê-los gerados em seu ventre, ela é também a fundadora do Afro-Sul. O grupo de Música e Dança nasceu em 1974, da reunião de jovens que, preocupados com a falta de conhecimento sobre a cultura negra, encontraram através da música e da dança a melhor maneira para divulgá-la. As reuniões eram feitas na Sociedade Floresta Aurora, na antiga sede no Bairro Cristal.

Tempos depois, em 9/3/1980, é fundada a escola de samba Garotos da Orgia que, por influência do Grupo Afro-Sul, determina em seu estatuto que a escola só apresentaria enredos que enaltecessem a cultura africana. E, assim, inicia a linda e rica história de Iara com o Carnaval.



A diretoria-executiva da então recém formada escola era formada apenas por homens, e ela era a única mulher a fazer parte das reuniões. Há quem, erroneamente, fale que a Garotos seria uma dissidência dos
Acadêmicos da Orgia. As duas entidades coexistiram e, inclusive, fundadores da nova entidade continuavam saindo na Acadêmicos e, paralelamente, formavam uma das escolas que ganharia uma importância ímpar para a nossa cultura.

Eis que surge a questão: quem será nossa porta-bandeira? Na falta de quem pudesse assumir o posto, sugeriram a jovem bailarina. Iara seria a primeira e quase vitalícia condutora da bandeira lilás e branca de Garotos da Orgia. Ela não foi somente a porta-bandeira da escola: escrevia o tema, o desenvolvia junto com os figurinistas, confeccionava muitas das fantasias usadas pelos componentes, fazia as compras, dirigia alas, coreografava a comissão de frente (formada pelos bailarinos do Afro-Sul) e, quando chegava na concentração da escola, antes de se vestir e incorporar a porta-bandeira, montava a escola e resolvia problemas para, então, poder tomar posse de sua bandeira e desfilar com graça e alegria ao lado do seu companheiro.

Um desfile memorável de Garotos da Orgia
Iara conta que, em 1988, a escola apresentou o enredo “Tenda dos milagres”, baseada na obra de Jorge Amado. Antes de o enredo ser anunciado, uma carta foi enviada ao autor que, além de responder o telegrama autorizando o uso da obra, indicou o roteirista que havia desenvolvido minissérie na Globo. Era o melhor samba do Carnaval. Todos cantavam o refrão:

Quando eu morrer me ponha na mão uma rosa vermelha
Uma rosa de fogo
Rosa de Oxalá
De reza, de canto e de dança Rosa de Oxalá...
 
 
Foi um desfile memorável, pois era o primeiro ano da escola no Grupo Especial. Mas o descaso com uma escola “pequena” foi tão grande que, quando estava desfilando, jurados sequer estavam em suas cabines julgando seu desfile. O grande jornalista Carlos Alberto Barcelos, o Roxo, no outro dia foi aos microfones indagar ao corpo de jurados que nota eles teriam dado para a escola, pois, na hora do desfile, não estavam onde deveriam. O resultado foi o rebaixamento...

Uma parceria histórica

No terceiro ano de Iara como porta-bandeira, no Carnaval de 1984, o destino proporcionou o encontro de almas gêmeas que viriam a encantar a “Perimetral” com a sua arte... Iara inicia a sua grande e indissolúvel parceria com Osmar. O casal desfilou por nove Carnavais defendendo o pavilhão dos Garotos da Orgia. Foram desfiles mágicos e ousados, aos imprimiram um estilo próprio e cativante. Ao desfilar, eles prendiam a atenção. 

Pioneiros na criação de coreografias, aliavam ao cortejo do mestre-sala à porta-bandeira com a dança afro, com direitos a contrações e passos precisos. 


Ousados na busca pelo diferencial, certa vez desfilaram com as suas cabeças raspadas para melhor interpretar os personagens que o enredo lhes exigia: Iaôs do Candomblé. Sempre se apresentaram trajando fantasias de cor branca, sempre custearam suas próprias fantasias, sempre desfilaram abnegadamente. Não se falavam na avenida enquanto dançavam... Cantavam muito e se entendiam no olhar.
Todos os dias, quando o radialista Leandro Maia abria o seu programa na extinta Rádio Princesa e saudava todos os destaques do nosso Carnaval, ouvia-se em todos os lares um sonoro “Alô Iara e Osmar!”

A dupla desfilou sua cumplicidade de 1984 a 1992. Anos mais tarde, Osmar – “O Gigante de Ébano”, como carinhosamente Iara o denominou, deixou esse plano prematuramente. 

Depois de encerrar sua participação como porta-bandeira, Iara foi inclusive vice-presidente da escola, atuando com afinco até a sua extinção, em 1998.


Primeiro cartaz do Afro-Sul
Talentos que nasceram no afro-Sul
Sob os olhos atentos da coreógrafa, foram cultivados e descobertos grandes destaques do nosso Carnaval. Nomes como Joyce Elise (rainha do Carnaval 1995 e porta-estandarte dos Bambas da Orgia), Bieta Rodrigues (rainha dos Bambas da Orgia em 1995 e hoje passista da Unidos de Vila Isabel / RJ), o mestre-sala Gustavo Tiriri, a porta-estandarte Cristiane Pereira, a porta-estandarte Letícia Costa, a porta-bandeira Cíntia Machado, Liliane Pereira (porta-bandeira dos Imperadores e 1ª princesa do Carnaval 2010) e tantos outros que fizeram escola com a "Mãe Iara". 


A mãe zelosa viu sua arte ter continuidade quando sua filha Edjana, a Didi, tornou-se uma das portas-estandarte dos Imperadores do Samba.

Quatro décadas de trabalho na avenida
Hoje, Iara atua como assistente social na Fundação Instituto Afro-Sul Odomode, realizando um trabalho com a comunidade dos arredores da sede, na Avenida Ipiranga, em Porto Alegre. O Grupo de Música e Dança comemorou, em 2012, 38 anos de existência. E é ela quem onde ela continua à frente das criações das coreografias.

3 comentários:

Anônimo disse...

muito bom este baú, gostaria que fosse lembrado Embaixadores memorável de 1984 com o tema Donga pelo telefone!

João

Anônimo disse...

Linda coluna, parabéns Baticumbum e Gugu!! Bj

Patricia Fraga

Ulisses Duarte disse...

Ótima coluna. parabéns Gugu.