segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Coluna: O porquê de “A Festa Brasileira”


Caros leitores, devo a vocês uma apresentação da coluna, já que o assunto tratado no texto anterior me parecia mais urgente (releia aqui). Então vamos em frente. Sou um assíduo torcedor do carnaval de Porto Alegre. Apesar de ter atualmente menos de 30 anos, desde os meus 15 eu acompanhava Carnaval pela TV.

Passei algumas madrugadas acordado na década de 1990, aguardando as nossas escolas de samba. Aguardando mesmo, pois elas atrasavam constantemente! Torcia por todas, sem restrição. Queria a afirmação da qualidade dos desfiles carnavalescos da cidade, e aproveitava a falta de motivos para não ser identificado com apenas uma escola e poder declarar minha torcida por elas. Todas!

Nunca tive ninguém da família envolvido diretamente em escolas de samba, Aliás, poucos sabiam que elas existiam. Poucos amigos devotavam ao desfile da tevê algum interesse. Nunca tinha pisado numa quadra até meados dos anos 2000. Enfim, diferente de muitos de vocês, o Carnaval não era um assunto de família, as quadras não eram meu espaço de lazer e sociabilidade, e não havia ninguém do meu círculo de amizades integrando uma escola. Minha entrada no mundo do samba e do Carnaval foi pela via da pesquisa acadêmica.

Em 2008, cheguei à quadra do Império da Zona Norte para fazer um trabalho para a faculdade. Quem me recebeu, depois de um contato virtual no quase pré-histórico “orkut” foi Walmir Oliveira, diretor de Carnaval. Deixou-me muito à vontade na Escola, assim como outros imperianos que lá conheci. O trabalho virou minha monografia de conclusão de curso. Engatei o mestrado na sequência, desta vez em Antropologia Social na mesma Universidade (UFRGS). 

Minhas perguntas e minha intenção de continuar a investigação não estavam encerradas. Desta vez, fiz um trabalho comparativo sobre a produção carnavalesca nos bastidores do desfile de duas Escolas de Grupos distintos: a União da Vila do IAPI e a Acadêmicos da Orgia, Grupo Especial e Grupo de Acesso, respectivamente, ambas no carnaval de 2011. Muitas idas ao barracão do Porto Seco e aos ensaios na quadra. Fui recebido pelas diretorias com interesse e certa liberdade para realizar o trabalho (meus agradecimentos aos presidentes Sodré e Cy)

Hoje, no Doutorado em Antropologia, tenho outros interesses de pesquisa. Estudarei em outras regiões para além de Porto Alegre. Mesmo assim, meu próximo passo em direção à produção de uma tese sobre a cultura carnavalesca, e o mundo do samba no sul do Brasil, continua fortemente ligado a minha trajetória de vida e de pesquisa relacionadas ao Carnaval. 

O que era apenas uma tentativa de encontro com aquilo que estimulava minha curiosidade e interesse, foi longe. Todos sabem do restrito interesse acadêmico sobre o Carnaval e outras manifestações populares, que reina até hoje nos espaços universitários, especialmente no nosso Estado. E não é só isso: há pouca abertura nas escolas e pouco interesse por parte das outras instituições articuladas ao Carnaval. Até já foram escritos alguns bons TCCs, outras dissertações de mestrado em Antropologia, em História, e também no Jornalismo. Teses são mais raras ainda. Talvez não se supere a marca de mais de uma dezena de trabalhos dedicados ao Carnaval na Universidade Federal.

Dedicarei neste espaço, chamado “A Festa Brasileira”, algumas notícias, ideias, críticas, análises e comentários que circundam o debate sobre Carnaval e o tema das festas no Brasil. Espero que ele produza boas reflexões aos carnavalescos e leitores. E, agora que já sabem de onde eu parto, e sob que ponto de vista parcial eu vivo o Carnaval, vocês podem perguntar "E por que 'Festa'?", Por que 'Brasileira'?".

Muitos podem me questionar sobre o porquê o substantivo festa no lugar de “Carnaval”. Explico. Penso na “festa” como um momento ritual inscrito nas sociedades humanas que deve ser estudada seriamente. O Carnaval é uma destas festas, talvez a mais importante no Brasil. É “A” festa, como já descrimina o artigo
definido do título da coluna. Mas, como festa, ela não deve ser tratada apenas como lazer, entretenimento ou algo menos importante do que a formalidade cotidiana. Na festa, deve-se pensar numa complexa teia de relações sociais que extrapolam em muito os preconceitos que a tratam como uma amenidade. A festa comporta dimensões históricas, simbólicas, culturais, econômicas, políticas. Entrelaçada ou desarticulada, ela envolve os grupos da cidade e para além da cidade, que com ela convivem, produzem seus valores, estilos de vida, relações comunitárias e sociais.

E brasileira? Ao contrário do que muitos possam acreditar, as grandes festas populares não são exclusividade do país. E o Carnaval, como a maior delas, não é uma festa que historicamente surgiu aqui. É uma data religiosa existente desde a Antiguidade, depois adotada pela Igreja Católica com uma celebração profana bastante distinta daquela que existe hoje. No Brasil, ela começou a ser celebrada pelos colonizadores portugueses, assim como em Porto Alegre, logo no primeiro ano de sua fundação (1772), nos jogos de sujeira do entrudo. Isto rompe com a ideia da origem africana do carnaval, hoje, falsamente difundida.

Por isto, entendo que, quem pensa a festa carnavalesca, deve tomar cuidado com todos os estereótipos redutores. Hoje, ela está sendo produzida e celebrada no Brasil por diferentes e heterogêneos grupos. Junto com todas as restrições sofridas historicamente pelo carnaval em Porto Alegre, como sabemos, nas últimas décadas, teve como protagonista os grupos negros associados a ela. Isto desde a fundação do Carnaval popular das escolas de samba desde 1930. Considero que essa verídica argumentação deve ser colocada entre aspas e com muito cuidado. Antes disto, ou conjuntamente ao Carnaval popular, tínhamos as Grandes Sociedades, os carnavais dos salões, dos préstitos.

A festa carnavalesca, hoje, deveria ser tratada como a maior festa da cidade, que reúne todos os possíveis foliões, independentemente de classes sociais, diferenças culturais e raciais dos identificados com a festa. Isso acontece? Creio que não, e no plano social atual, ainda é um sonho inalcançável. Mas acredito que o crescimento do carnaval de Porto Alegre possa estar comprometido sem o alargamento das suas fronteiras. Sabemos como ninguém do preconceito e do estigma intransigente imposto ao Carnaval em muitos espaços da cidade. Mas entendo que ele não vem apenas de fora para dentro. 

Sabemos abrir espaços do Carnaval para os de fora? O carnaval de Porto Alegre não restringe a entrada de novos personagens e participantes numa ânsia de se estabelecer por ele mesmo? 

Acredito que a festa, antes de porto alegrense, popular, negra, tradicional ou qualquer outra característica que a qualifique, no plano simbólico, poderia ser marcada por uma possível totalidade. Ser brasileira antes de tudo a possibilita flertar com essa totalidade, apesar dos pesares. E que ela atraia a maior parte dos possíveis participantes, atuais ou que estão por vir.

5 comentários:

Anônimo disse...

porque as outras escolas do grupo especial não vão descer a borges?

João

Maurício disse...

Baita Reflexão, e que ela possa ser tratada com respeirto pelo poder público e que possa atrair "novos" públicos.

Juliana disse...

Muito bom o post, parabéns pelo excelente trabalho, o carnaval agradece.

Anônimo disse...

Mais uma vez, parabéns pela coluna! Espero que este espaço seja valorizado e continue o ano inteiro!
Abraços

Patricia Fraga

Rogério disse...

Excelente abordagem! Fico feliz vendo pessoas ligadas à academia, tendo um profundo interesse pelo nosso carnaval. Achei a relexão sobre a necessidade do carnaval acolher diferentes segmentos sociais para se fortalecer e dar o grande salto de qualidade que esperamos.