segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Conta Aí, por Gisele Mendonça


A coluna deste mês mostra a importância que cada um tem dentro de uma escola de samba, não importa se é porteiro, segurança, destaque, se é remunerado ou não. A união de todos na engrenagem é que forma uma agremiação.

Eu, além de colunista, sou destaque da Unidos de Vila Isabel, e confesso que, depois que do relato do personagem de hoje, fiquei mais feliz e passei a valorizar mais ainda o meu cargo. Mas, principalmente, a passei a respeitar ainda mais todos os que trabalham para o bem da Vila e os que pagam para assistir. 

A história abaixo é contada por Alessandro Anthunes, mais conhecido como Fofo, integrante da harmonia dos Imperadores do Samba. O episódio aconteceu na quadra da vermelho e branco. 

O conselho de um sábio

“Janeiro de 1998. Imperador “bombando”. A escola da moda, lutando pelo tetra campeonato. Ensaios lotados, muita gente bonita, bebida gelada e o clima do povo em alto astral. Porém, internamente, entre os destaques que se apresentavam na quadra — o chamado grupo show —, existia uma tensão, mesmo que indiretamente. 

De um lado, o primeiro escalão, composto pela porta-bandeira Isabel, pelo mestre-sala Alexandre, pela porta-estandarte Tiquita, pelo passista Gude e pela passista Denise, destaques incontestáveis na história do Carnaval e do Imperadores. Do outro lado, estava o segundo escalão, composto por todos os segundos e terceiros casais de mestre-sala e porta-bandeira, estandartes, passistas, mulatas, comissão de frente e ala de pandeiros, da qual eu fazia parte.

O motivo da discórdia envolvendo os profissionais era que os destaques do primeiro escalão, que ganhavam cachês, lindas fantasias e todos os méritos das conquistas da escola, participavam apenas da primeira parte dos ensaios, enquanto o segundo escalão — composto por poucos que ganhavam alguma coisa, uns só a fantasia, outros uma ajuda de custo, outros nada ou só a passagem — tinham a cobrança e a obrigação de dançar os dois tempos do ensaio.

Numa bela noite de quarta-feira, nós, do então segundo escalão, resolvemos fazer uma rebelião, um motim, e, após a primeira parte do ensaio, decidimos todos não voltar mais para a segunda parte da apresentação, mas sim ir até o Departamento de Carnaval esclarecer nossas insatisfações e fazer cobranças diretamente com o "Velho" João Aruanda, na época diretor de harmonia geral e também o responsável pela direção de Carnaval.

Eu pedi para a Saionara Pontes, que era esposa dele e diretora de destaques, para podermos falar com o "Tio", que era a forma como eu me dirigia ao Mestre João Aruanda. Ela prontamente falou com ele, que mandou que todos entrássemos na sala. 

Nossa! Aquela sala virou um inferno, lotada, calor, suor, cheiro de tudo... e tudo mesmo! Era todo mundo falando ao mesmo tempo, reclamando, pedindo, chorando, até namorando... E ele, o Velho João, só a ouvir, como um sábio, calmo, sereno como o velho baiano Jorge Amado. Eis então que o Velho João falou:

— Meus filhos e filhas, aqui no Imperador, todos são importantes, e vocês são mais importantes do que eu, que estou velho e barrigudo. São a vocês que esse povo vem olhar, aplaudir, se emocionar. Enquanto eles olham vocês, acabam consumindo mais cervejinhas, mais refrigerantes, fazendo entrar mais dinheiro para a escola. E o resultado, lá no final, é que tudo isso reflete no lindo Carnaval.

Mesmo depois dessas palavras, as caras de insatisfações continuavam, e o burburinho também. A frase que mais se ouvia na sala é que já estávamos cansados de dançar duas vezes, pois naquele Carnaval o grupo show não parou. Emendou 97 com 98. E todo mundo falava, e o Velho João só a escutar, e sempre que podia me olhava, firme, sério. E a discussão rolava e o horário para voltar do intervalo já estava quase passando. 

Então, o Velho João olha pra mim e pergunta, da maneira como ele me chamava:
— Então é isso meu sobrinho? 

Parei e olhei em minha volta. Tremi, senti dor de barriga. De um lado o meu mestre, do outro meus colegas, companheiros e companheiras, só me devorando com os olhos, tipo me dizendo “não arrega cagão!” Mas fui firme e disse: 
— É isso ai sim, Tio.

No mesmo instante, o Velho João gritou bem alto  "SAIÔÔÔÔÔ!!", chamando a Saioara, e disse a ela: 
— Me chama o Brinco ou o Gravador (então mestres de bateria). 

Não demorou muito e entrou o Gravador. O Velho João cochichou alguma coisa no ouvido dele, que saiu imediatamente da sala. Ninguém estava entendendo nada, até que entra pela porta o Susto, ritmista da escola na época, carregando um enorme surdo, apelidado de treme terra, com a mão toda arrebentada e o couro do surdo com as gotas de seu sangue. Todos em silêncio, mudos.

Então, o Velho João pergunta ao Susto:
— Você tá cansado? 

E o Susto responde: 
— Não senhor! 

— Tu vais voltar para a segunda pegada do ensaio, que vai ser de mais duas horas? 

— Vou sim, senhor!

Naquele momento, entra um dos zeladores da escola, o Esquerdinha. E o Velho João pergunta: 

— E ai Esquerda, que horas você chegou hoje aqui para preparar a quadra?

E o Esquerda responde: 
— Eu cheguei às 16h, seu João. E o Getúlio às 14h. 

– E que horas tu e o Getúlio irão embora? 

— Não sei, seu João, pois temos que limpar toda a quadra depois que esse povo todo for pra casa. 

— Tá cansado, Esquerda? 

— Ainda não, seu João.

— Tá cansado, Esquerda? — perguntou em tom alto umas três vezes. E recebeu a mesma resposta do Esquerda em todas elas: 

— Não senhor, João!

Após esse momento, o Susto e o Esquerda saem da sala, e o Velho João diz a todos que a reunião está encerrada e que ninguém é mais obrigado a dançar no segundo horário, principalmente aqueles que estiverem cansados. Todos se olham, fica aquele silêncio.
Do lado de fora, Sandro Ferraz, que era o intérprete dos Imperadores, está prestes a arrancar o segundo tempo. A bateria do Brinco e do Gravador já está a postos. Imediatamente, olho para os meus colegas de pandeiro e todos voltam comigo para a continuação do ensaio. E me surpreendo, pois praticamente todos os destaques do segundo escalão voltam também, com um olhar envergonhado... Mas felizes, pois só quem estava naquela sala sabia o por quê daqueles olhares e sorrisos. Todos seguem dançando ao som da Sinfônica até o final da tradicional muamba da quadra.

Naquela ocasião, fui o último a me arrumar e a deixar a sala do departamento de Carnaval. Ao sair, me deparo com o Velho João, sentado em frente a uma mesa, sem camisa, com sua guia de Xapanã, numa mão fumando um cigarro, na outra tomando um cafezinho preto, me fitando com aquele sorriso maroto enquanto eu saía pela porta. 

Aquele dia foi e sempre será inesquecível para mim, pois aprendi que ninguém é mais do que o próprio Imperador, que ninguém deve se sentir mais ou menos importante dentro de uma escola, que todos devem, sim, se fazerem importantes, que tocar um surdo ou limpar a quadra inteira após o ensaio lotada cansa mais do que rebolar ou girar pandeiro sob aplausos. Isso sim, é de arrepiaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrr!

16 comentários:

Anônimo disse...

A sapiência de um Grande Mestre, que em poucas palavras inverteu uma situação de "descontentamento" de um grupo para "motivação" de uma equipe... Que o GADU, continue a iluminá-lo onde quer que ele esteja...

Elza Aguirre disse...

Parabéns Giséle; parabens ao autor do texto. Em meio a semana do aniversário do imperador, a três semanas de mais um carnaval e prestes a completar meus 65 anos, você me fez chorar de alegria, de emoção. não conheci o joão Aruanda, mas sei que esses tipos de histórias contribuem não só para os Imperadores mas também pelo amor ao carnaval, a entidade, ao pavilhão...Vou chorar, assim como estou chorando agora, ao ver desfilar o meu amor maior. Feliz carnaval a todos. Elza Aguirre.

Renatinho Mestre-sala disse...

Eu estava lá naquela salinha, e lembro de tudo isso como se fosse hoje. Saldade do mestre Aruanda!

Luciane disse...

Nossa, que história!!! Já ouvi e presenciei muitas histórias ao lado do Fofo e sei que isso é apenas uma das grandes histórias que ele tem por esse Imperadores que ele ama e se dedica por tantos anos! Parabéns pela postagem Gisele, ficou ótima! Beijossss Abelhinha

Luis carlos oliveira borges disse...

BRAULINHO, ESSE É O NOSSO ETERNO MESTRE!!! SALVE O JOÃO. luis Carlos ex coordenação dos imperadores.

Anônimo disse...

"1998-2013", Lá se vão 15 anos de carnavais, e quase nada, se não nada mesmo! A briga de egos, as vaidades e a falta de respeito entre presidentes, dirigentes e destaques continuam os mesmos, se não piores. O carnaval é do povo e não de presidentes ou diretores remunerados. Ainda existe amor e paixão sim e taí esse texto acima que comprova o que estou falando. O pavilhão de cada entidade é que vem primeiro e depois dele o seu povo que faz a engrenagem andar e a magia acontecer.O que esta faltando são pessoas como o saudoso joão aruanda, para com suas sabedorias e ensinamentos passarem o que realmente o carnaval tem de bom e produtivo. Que os novos aprendam e valorizem o que temos de bom,puro e verdadeiro, que é o amor por uma entidade carnavalesca, pois as velhas mentes que comandam as atuais entidades, salvando excessões, eu não acredito mais. Parabéns Gi.

Alessandro Anthunes disse...

Obrigado Gisele por tornar publico a minha historia. Sem nenhuma pretençao, alem de dividir com o povo carnavalesco uma de muitas historias que vivi dentro do mar vermelho e branco, junto de amigos, colegas e de tantos mestres, entre eles Joao Aruanda, o maior e melhor diretor de harmonia de todos os tempos do nosso carnaval. "Ao mestre, onde ele estiver, saudade de mais um integrante, de mais uma gotinha, desse imenso mar vermelho e branco chamado Imperadores do Samba. Alessandro Anthunes. Fofo.

Juliana disse...

Linda história, tive a oportunidade de desfilar no Imperador na época em que seu Aruanda estava entre nós, ele era uma pessoa incrivel, nos doavamos muito e foi uma época muito feliz na minha vida, te amo meu imperador e estarei sempre junto a essa escola.

Dezza Ortiz disse...

Linda essa história mesmo, nos faz refletir sobre as atitudes perante a escola e sempre lembrar que o bem maior é o pavilhão!

Irish disse...

Adorei a história, muito bem contada, como se eu também estivesse naquela salinha. Parabéns Fofo! Sucesso Gi!
Beijo.
Iris

Anônimo disse...

Desfilei tbm na escola enquanto seu João Aruanda ainda comandava o grupo show com maestria, e aprendi com ele na minha juventude o respeito entre colegas e superiores, pois mesmo eu uma simples mulata era atendida quando tinha momentos de problemas e dúvidas por ele, a qual nunca se negou a atender a cada um de nós como seus netos, sobrinhos entes de sua família e me sentia parte de um todo. Talvez nunca mais presenciaremos alguém que trate seus destaques e resolva os problemas como ele. Um abraço ao Mar vermelho e branco Maíra Cidade

Anônimo disse...

SÓ PARA REGISTRAR, QUE AINDA HOJE, O LEGADO DEIXADO POR ESSES GRANDES MESTRES COMO ROXO, BETINHO, MEDINA, NERI E O SAUDOSO ARUANDA, É LEVADO A RISCA E IMPLANTADO NA NOSSA BATERIA PELO MEU MESTRE BRINCO QUE FAZ QUESTAO DE EXALTAR QUE O IMPERADOR VEM A FRENTE DE TUDO...É ASSIM QUE É E ASSIM SERÁ PRA SEMBRE E NUNCA IRA MORRER...E SO PRA CORRIGIR, O FOFO NÃO É DIRETOR DE HARMONIA MAS INTEGRANTE DA NOSSA BATERA. VALEU NEGÃO, TÂMO SEMPRE JUNTOS NAS BOAS E NAS RUINS. NEGÔ ANDRÉ.

Anônimo disse...

e isso ai pai

wilson silva disse...

Cara eu tive tambêm o privilegio da conviver muitos anos com o mestre João, como integrante da bateria e depois como compositor da escola e ele era realmente uma pessoa fantastica e essa historia mostra que mestre é mestre, saudades joão.

Anônimo disse...

Minha filha e terceira porta bandeira de uma escola de samba aqui da capital. Ontem peguei ela de conversa ao telefone com uma amiga, dizendo que nao iria mais se dedicar ao carnaval, que nao iria mais gastar seu tempo e nem seu dinheiro em escola de samba porque quem ganha os olofotes e so o primeiro casal. Pedi para ler a sua coluna gisele.....kkkkk...gostaria de ter registrado a expressao da mesma ao termino der lido o texto. Kkkkk agora entendi a expressao de vergonha misturado ao sorriso maroto! Gina.

Anônimo disse...

Parabéns pela entrevista lindas palavras, acredito que essa seja a essência sublime que tem faltado em muitas entidades carnavalescas e no nosso carnaval em geral.